domingo

Capacho Voador



Três horas da manhã.

Mira e Roberta, estão chegando ao edifício onde moram depois de curtir a festa de bota-fora de um amigo. Mira bebeu além da conta. Ela tem problemas quando bebe: fica com ânsia de movimentos, tem a percepção completamente alterada, perde a noção do ridículo, e por aí vai... Bem, lá vão as duas irmãs, entre risos e tropeços, entrando no elevador. Moram no décimo-primeiro piso. Mira, rindo muito, aperta duas ou três vezes o botão de emergência fazendo o elevador estancar.

- Pára com isso, Mira. Que saco! - reclama Beta.

Mira continua a brincar e vai nesse pára-não-pára até chegar ao seu andar. Roberta abre a porta do elevador e sai na frente. Mira segue a irmã pelo corredor de seis apartamentos, ainda rindo e comentando os "detalhes mórbidos" da festa.

- Fala baixo... Ri baixo, Mira! Já é muito tarde. Deste jeito você vai acordar todos os vizinhos.

Ela nem liga. Continua a rir e falar sem parar. Roberta ainda está com a mão dentro da bolsa, procurando a chave para abrir a porta quando, de repente, o quase grito:

- Meu Deus!!!
- ... que foi, Mira?
- Esse tapete aí na porta de entrada não é o nosso!...
- Ih! É mesmo. O zelador deve ter trocado com o de algum outro apartamento quando limpou o corredor. Amanhã a gente fala com ele.
- Amanhã, não! Mira sacode os braços andando prá lá e prá cá. - E eu sou mulher de deixar alguma coisa pra amanhã? Eu vou resolver isso é agora.
- Tá maluca, Mira? Vamos entrar. Vai dormir. São mais de três horas da manhã!!!
- Nããão. Eu vou é resolver isso agorinha mesmo.
- Vai resolver como, sua maluca? Quem é que vai se preocupar com um capachinho de porta numa hora dessas?... Sossega o pito!
- Vou lá embaixo pedir ao porteiro da noite prá acordar o zelador.
Roberta já com a porta do apartamento aberta:
- Mira, entra por favor?... Vai tomar um banho frio. Eu acho que você está mais bêbada que de costume...
- Se você não quer ir comigo, fica aí. Eu já tô indo...

Não há nem tempo de Roberta tomar alguma providência. Mira, resmungando, já está fechando a porta do elevador.

"Pronto! Lá vai a Mira me arranjar confusão de novo! E na madrugada. Eu mereço!"

Assim pensando Roberta entra em casa e vai preparar um café forte.

"É disto que aquela doida tá precisando..."

O café está quase pronto quando alguém esquece o dedo na campainha. Roberta abre a porta fula de raiva e dá de cara com Mira e o zelador caindo de sono.

- Boa noite, d. Roberta! Ou bom dia, sei lá...

Mira nem percebe a ironia do cumprimento. Fica lá sacudindo os braços e reclamando.

- Sêo Zé, o senhor precisa prestar mais atenção ao que faz. Olha só... Amanhã o dono do capacho vê ele aí na minha porta e vai achar que fui eu quem o pegou.
- Sêo Zé, o senhor sabe como é a Mira... Eu peço desculpas por ela ter acordado o senhor a esta hora da madrugada. - e virando-se para a irmã: Quer fazer o favor de entrar e tomar um café?...

E a Mira:

- Se isso acontecer novamente eu vou denunciar o senhor na reunião de condôminos.

Roberta pisca um olho para o zelador.

- Pode ir, sêo Zé! Amanhã a gente conversa mais sobre isso. E mais uma vez peço desculpas.

Sêo Zé já está descendo no elevador e Mira está lá, examinando o inocente tapetinho.

- Eu acho que esse capacho é do vizinho do 1101... É sim! Agora me lembro.
- Mira, chega! Entra, toma um café, um banho frio e vai deitar. Você hoje está passando da conta...
- Peraí, que eu vou ali na porta do vizinho conferir.

E lá vai a Mira investigar a entrada do 1101...

- Volta aqui, Mira! Aonde é que você vai? Eu preciso dormir, tenho que acordar cedo amanhã. Chega, Mira!

E a Mira já voltando pelo corredor...

- Viu? Não falei? É do 1101 mesmo. O nosso capacho tá lá na porta dele. Peraí que eu vou destrocar.

Roberta, o rosto encostado à porta, já está que não se aguenta e quase não acredita quando vê Mira apertando a campainha do apartamento 1101. Morrendo de vergonha, esconde-se atrás da porta entreaberta.

- Mira você pirou? Ai, meu padim padi ciço, é hoje!... Mira, larga esse capacho aí e entra aqui em casa. O cara vai chamar a polícia!

E Mira lá, com o dedo na campainha...

De repente, a porta se abre e aparece o vizinho. Calça de pijama, sem camisa, pés no chão, cabelo totalmente em desalinho, olhar a meio-palmo, voz rouca de quem foi arrancado do sono:

- O que houve?...

- Olha, o seu capacho tava lá na minha porta. Mas não fui eu quem colocou ele lá não. Foi o seu Zé. Como eu não quero confusão comigo, vim até aqui para devolver o seu tapete. Eu estou levando o meu, (abaixou-se para fazer a troca), e colocando o seu no lugar.

O vizinho olhava incrédulo. Provavelmente pensava estar tendo um pesadelo. Decididamente não estava entendendo nada. Resolveu então não contrariar a moça. Disse apenas:

- Tá! - E bateu a porta.

Mira finalmente entrou em casa. Encontrou Roberta ainda atrás da porta de entrada tendo um ataque de riso.

- Eu tenho que admitir que você tem muita sorte, Mira!
- Não quero conversa não. Vou dormir que isso tudo me deixou muito estressada.

Pode???


ju rigoni


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2 comentários:

Chá das Cinco disse...

Adorei o seu Blog!
Sou a sua mais nova seguidora.
Te aguardo no meu, espero que goste.
Um grande abraço.

adelaide amorim disse...

Mira é uma personagem tão real que até parece que a gente já conhece a peça :D Beijo, Ju! Bom fim de semana, viu?