sábado

A Saga da Escova Progressiva



- Arre égua! Eu não vou a festa do João com este cabelo nem que a vaca tussa...
- Marca com o Robert. Ele vai dar um jeito nisso...
- Tô de saco cheio deste cabelo. Mais parece uma palha escura... Quando está molhado fica uma beleza. Aí, começa a secar, e vai subindo, subindo... Se me derem uma vassoura eu saio voando...
- Aaaah! Você é uma exagerada! Ninguém bota reparo nisso...
- Quer saber?... Vou fazer essa tal de escova progressiva.
- Ah, meu padim padi Ciço! Não inventa, Mira! Da última vez que você colocou uma dessas químicas no cabelo quase ficou careca, lembra? Eu não esqueci não. Fiquei sem trabalhar uma semana cuidando da madame...
- Ih, Beta, lá vem você...
- Ih, Beta, uma ova! Sempre sobra pra mim.

Mas, com a Mira não adianta. Já estava procurando o caderninho de endereços. Ligou para o salão de beleza e agendou uma consulta.

- Realmente, seu cabelo está precisando ser domado.
- Isto mesmo, domado! Este meu cabelo é uma fera. Selvagem. Perigosa. Quando penso que ele está de um jeito, descubro que está de outro, completamente diferente. Tem vida própria. Faça eu o que fizer, ele não está nem aí...
- Mira, você é uma figura!
- Por estas e outras, eu quero que você me faça uma dessas tais escovas progressivas. Pode ser?
- Claro! A gente faz primeiro um teste para saber se o seu organismo vai reagir à química. Eu coloco um pouco do produto atrás da sua orelha e um outro tanto debaixo do braço, junto da axila. Esperamos 24 horas. Se não houver reação fazemos a escova, combinado?
- Combinadíssimo!

Robert aplicou cuidadosamente o teste do produto e ficaram de se falar ao telefone assim que as tais 24 horas se completassem.

Mira saiu do cabeleireiro com a cabeça cheia de planos. Com um cabelo lisinho, baixinho, tudo ia ser diferente. Havia a promessa de entrar e sair da água do mar ou da piscina sem aquela preocupação de ficar aplicando toneladas de cremes para que, sob o sol intenso, o cabelo se mantivesse com a aparência de molhado que tanto lhe favorecia. E também o conforto de, pela manhã, ter apenas que passar um pente ou escova e nada mais; estava pronta para sair. Nada de gel ou mousse. Nunca mais a necessidade de arcos, menudinhos, elásticos, faixas ou lenços para deixar à mostra a beleza dos traços da mulher nordestina, tão evidentes no rosto de Mira.

Estava assim pensando, - em êxtase com a possibilidade de madeixas nipônicas -, quando lembrou-se que a despensa estava vazia e embicou para o supermercado mais próximo.

Já de carrinho cheio, passou de nariz em pé pela prateleira de cremes rinses, alisantes, cremes para pentear, pomadas para cabelos volumosos, e tais... Finalmente ia se ver livre daquele tormento. A indústria de cosméticos para cabelos de bruxa ia, finalmente, perder uma das suas mais ávidas consumidoras.

Em casa, Beta também encontrava vantagens nessa empreitada da irmã. Se tudo corresse bem, o banheiro ficaria livre dos cerca de cinquenta produtos para cabelo que Mira mantinha sobre a larga bancada da pia. O armário também ficaria agradecido já que Mira ocupava duas gavetas só com adornos para segurar o cabelo. E havia também as toucas especiais de massagem e as tais pranchas alisadoras - que a Mira nunca se contentava com uma só.

Beta já estava arquitetando uma nova arrumação para o banheiro e para os armários quando o telefone tocou.

- É da casa de dona Mira Ramalho?

O coração de Beta mudou de compasso.

- É, sim senhor.
- Eu poderia falar com a irmã dela?
- Sou eu, - o que há?...
- Senhora, eu estou ligando para avisar que a sua irmã está internada aqui na emergência do Hospital Universitário Antonio Pedro.
- Meu padim padi Ciço!!! O que aconteceu com ela?
- Parece que trata-se de uma reação alérgica... A senhora pode ter maiores informações vindo até aqui para conversar com o médico.
- Diga, por favor, a ela que eu já estou indo...

Beta encontrou Mira deitada de lado com parte do rosto e o braço totalmente deformados.
- É Beta... Fala pro João que, este ano, ele vai passar o aniversário sem a minha presença.
- Como é que você está se sentindo, minha irmã?
- Como se tivesse sido picada pelo mosquito da elefantíase. E o pior é que o médico nem sabe me dizer em quantos dias eu vou voltar ao normal...
- Mas, o que é que aconteceu? Seu cabelo está do mesmo jeito! Você nem fez a tal escova...
- Foi só um pouquinho do produto que o Robert aplicou, a título de teste, atrás da minha orelha e debaixo do meu braço. Imagine se tivesse aplicado no cabelo todo...
- Valha-me Deus! É, minha irmã... Esse tal alisamento não é pra você. Mas eu já lhe disse mais de uma vez que o seu cabelo não é esse terror todo que você prega... Cabelos ondulados também são bonitos. Por que é que agora toda mulher tem que ser loura e ter cabelos lisos, escorridos?...

E a Mira, amuada:
- Não fala mais nada não Beta, que a emenda pode ser pior que o soneto. De mais a mais, diante das circunstâncias, eu já me conformei com a minha "escova regressiva".

ju rigoni


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Um comentário:

Dri Viaro disse...

Oi, passei pra conhecer seu blog, e desejar boa semana
bjs

aguardo sua visita :)